CACIPORÉ TORRES

A imersão no ateliê do artista sempre é algo fascinante. No ambiente de trabalho de Caciporé Torres é possível perceber que o segredo de sua produção artística é a disciplina. O processo criativo do escultor se constrói cotidianamente, através de materiais industriais e ásperos. Trabalha, em especial com materiais duros e pesados, como o ferro, selecionando superfícies planificadas, estendidas em desenvolvimento, como se fossem erupções, cones e formas. As construções maciças não-representativas e fortemente expressionistas adquirem volume e variadas dimensões, sempre articuladas à marca do artista: a solda. O uso do aço inox sucateado e a forma cilíndrica completam a tríade dos elementos básicos da produção artística de Caciporé.

 

Fortemente comprometido com a destinação social de sua obra, Caciporé Torres possui diversos trabalhos em espaços e museus públicos, tais como a Praça da (São Paulo/SP) e o Museu de Arte Contemporânea da Universidade (MAC USP). No MAC USP destaca-se a escultura A Montanha Azul (1966), obra premiada na IX Bienal Internacional de São Paulo, onde surgem placas, saliências e costuras no metal, com aparência industrializada, íntegra e de personalidade marcada.

Contudo, a diversidade do trabalho de Caciporé pode ser compreendida em sua verdadeira extensão quando se observa, mas proximamente, as obras de seu ateliê. Uma porta em aço inox, especialmente trabalhada pelo artista, recepciona os visitantes e abre o caminho para a descoberta de obras que vão da figuração à “representação da própria matéria”. São peças cinéticas, perfuradas, estriadas, fixadas às paredes ou soltas pelo chão, de prateado rústico, azul surgente ou vermelho oriental. Destacam-se obras como O Toco (1980) e a A Bolha (2000) que possuem formas voltadas às preocupações estéticas contemporâneas, tais como o jogo de planos, as oposições, os ritmos, e principalmente o diálogo entre a superfície plana e o volume.

Um visita ao ateliê de Caciporé Torres revela as nuances do cotidiano do artista. Delineia sua trajetória a partir dos registros das diversas fases pelas quais o artista passou. As peças tornam-se “memórias vivas”. Assinalam a renovação do artista e sua constante preocupação em coadunar espaços e volumes.  A obras de Caciporé são, na verdade,  expressão e síntese de uma vida dedicada à escultura.

 

São Paulo, agosto de 2011.

Elza Ajzenberg

 

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