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Ensaio

Niobe Xandó: uma escrita para contar a arte de viver

Mulher imprevisível. Suave e forte, bem humorada e muitas vezes até sarcástica, fez da expressão artística sua forma de, corajosamente, dizer o que pensava a cada diferente momento de uma longa e produtiva vida. E como pensava!

Ricardo Viveiros – ABCA/São Paulo

Foi em um pequeno lugar do Interior paulista que, há 100 anos, nasceu Niobe Nogueira Xandó (1915). Tão pequeno que não conseguiu segurar aquela que, anos depois, se tornaria mais famosa do que sua terra de origem. Da antiga Vila da Boca do Sertão do Avanhandava, Capela de Nossa Senhora dos Campos Novos de Paranapanema, hoje Campos Novos Paulista, saiu Niobe para brilhar no disputado chão de estrelas das artes plásticas.

Filha de um casal descendente de mineiros e paulistas, Antônio e Petronilha (dona “Mulata”), depois de uma bucólica infância e início de adolescência, aos 16 anos e já vivendo na capital do estado Niobe casou-se com um militante comunista, João Baptista Ribeiro Rosa. Naquele tempo era até comum casar tão jovem. Sendo com um comunista, já caracterizava uma audácia.

E, assim, Niobe construiu uma longa vida bem vivida: liberdade, coragem e inovação por 95 anos. Na convivência com a esquerda da época descortinou muitos caminhos, conheceu gente interessante. Sua irmã Áurea tinha um bar e livraria, o Itapuan, na então agitada área em torno do Teatro Municipal, no centro paulistano. Por ali, também estava a primeira galeria de arte da cidade, a Domus.

Niobe descobriu o atelier do professor Raphael Galvez, foi incentivada a esculpir e escrever. Frequentando a região, aproximou-se do pintor Di Cavalcanti, da atriz Maria Della Costa, do sociólogo Florestan Fernandes, do banqueiro Amador Aguiar, da crítica Radhá Abramo. Era um mundo novo e amplo, sobretudo efervescente, que se abria à jovem interiorana.

Descoberta

Maria Bonita II, técnica mista sobre papel, 100 x 70 cm, 1970

Foi Sergio Milliet, brilhante intelectual atuante em diversas frentes, que orientou Niobe para a pintura. Isso aconteceu entre 1948 e 1952, quando ela, autodidata, participou de mostras coletivas realizadas pelo Sindicato dos Artistas de São Paulo. E foi em meio a tais descobertas que encontrou um novo amor. Mais uma vez, em atitude rara para o seu tempo, desquitou-se do marido e foi viver com Alexandre Bloch, um intelectual tcheco que, oprimido pelas perseguições nazistas, havia chegado ao Brasil.

Bloch, homem estudioso e bem relacionado, apresentou Niobe ao “pensador malcomportado”, Vilém Flusser. Conterrâneo do companheiro da artista, também refugiado do antissemitismo, Flusser, foi um brilhante filósofo sem nunca ter se graduado. Aqui, com atuações importantes, inclusive uma coluna que marcou época na Folha de S. Paulo, desenvolveu pioneiras teses sobre linguagem, arte e tecnologia.

Foi ele quem, em artigo publicado no Suplemento Cultural de O Estado de S. Paulo (1978), sentenciou: “Uma entre tais janelas que dão sobre o futuro bidimensional, das superfícies vitoriosas, as quais derrotaram a linha do texto escrito, é a obra de Niobe Xandó…”.

Niobe Xandó, desde o primeiro desenho de sua longa e produtiva carreira, nunca se deixou prender pelos movimentos temporais comuns nas artes plásticas. Como quem vive intensamente cada instante, criou expressões únicas do que lhe ia pela alma, mesmo quando transitando livre por múltiplas escolas e tendências. Colocou emoção e razão em distintas formas, estilos e linguagens. Experimentou, ousou, inovou.

Caminhos

Seis máscaras II, técnica mista sobre papel, 50 x 70 cm, 1973.

Niobe começou no Figurativo, com referências que lembram as cores de Chagall, Gauguin, Munch e outros, cujas obras lhe impactaram quando, nos anos 1950, esteve nos EUA e viveu na Europa. Na sequência, de volta ao Brasil, tornou-se importante nome da Arte Mágica, ao tratar temas da natureza sob a ótica de um imaginário fantástico: folhas, raízes, animais, flores. Desse tempo há trabalhos tidos como radicais, usando crânios de macacos encontrados em florestas. Depois vieram outras descobertas, como o Grafismo no qual está, em nosso modesto entender, o ponto alto do seu trabalho. Mais tarde, pela influência que sofreu ao viver um período na Bahia e descobrir o Afro em nossa cultura, criou máscaras e totens de forte representação e delicada beleza. Esta fase também somou seus estudos sobre as artes pré-colombiana e indígena brasileira.

Por toda a década de 1960, Niobe desenvolveu cuidadosa busca de uma escrita fundamentada em signos que se tornam símbolos para criar nova forma de comunicação na eterna ponte entre o verbo e a imagem. “O meu problema com as letras é o de contrair, isto é, eliminar linhas, escrever o máximo com o mínimo das mesmas”, desabafou a artista. Nesse mesmo período, enfrentou embate entre o arcaico e o moderno, desenvolvendo um conceito próprio de Mecanicismo. É desse tempo o emblemático quadro “Black Power”, sobre o qual a artista revela: “Aos poucos estes elementos mecânicos passaram a dominar meu trabalho. Sentia então duas coisas: horror e atração. Acho que isto é um conflito do primitivo com o mundo atual”.

Sim, é tudo isso e muito mais. É arte feita com liberdade, emoção, qualidade técnica e, acima de tudo, respeito.

Niobe Xandó desenhou, pintou e escreveu para satisfazer a si mesma e ao público, mas, como sua história de vida comprova, sem vaidade e pretendendo apenas transmitir emoções. De 1953, quando fez sua primeira exposição individual em São Paulo, até 2010, quando morreu, foram inúmeras e importantes suas presenças no circuito artístico. Niobe participou de várias Bienais Internacionais de São Paulo, seus trabalhos integram alguns dos principais acervos públicos e privados, no Brasil e no mundo. Niobe pode até não pensar mais… Mas, segue nos fazendo pensar sobre sua obra. E como!

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