n° 40 – Ano XIV – Dezembro de 2016  →   VOLTAR

Jornada ABCA 2016

Em debate, o tema “Instituições e Críticos: Interfaces”

A programação foi realizada no Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis, contando com a presença de gestores de centros culturais, críticos, curadores, e pesquisadores atuantes no meio artístico e acadêmico

Maria Amélia Bulhões – ABCA/ Rio Grande do Sul*
Sandra Makowieck – ABCA/ Santa Catarina*

Anualmente, a ABCA realiza Jornadas de debates com o intuito de reunir importantes críticos de arte e pesquisadores, atuantes no meio artístico e acadêmico, para refletirem sobre problemáticas da área. Com o título Instituições e críticos: interfaces, a Jornada ABCA 2016 foi realizada no Museu da Escola Catarinense, em Florianópolis, no último dia 3 de novembro, em uma iniciativa da Regional Sul da Associação Brasileira de Críticos de Arte. Os objetivos do evento estiveram direcionados à abertura de uma profícua interlocução entre gestores de instituições atuantes no campo das artes visuais no País, com foco nos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná.

Pátio interno do Museu da Escola Catarinense. Foto: divulgação

A estrutura da Jornada foi a seguinte: pela manhã, a palestra de Fernando Cocchiaralle seguida de debates e, após o intervalo, uma mesa com a participação de Paulo Amaral, diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, MARGS; Glaci Gottardello Ito, representante da direção do Museu Oscar Niemeyer, MON, de Curitiba; e Lourdes Rosseto, diretora do Museu Victor Meirelles, de Florianópolis. Esteve ausente o Museu de Arte de Santa Catarina –  Masc, que não se fez representar. O público atento fez questão de participar.  Acirradas discussões serviram para evidenciar posições convergentes e, também, conflitantes, que permeiam nossa área de trabalho. A principal delas foi o próprio foco do evento: a necessidade e o interesse da participação dos críticos nas políticas artísticas das instituições. Nossa expectativa é de que as dúvidas e questionamentos levantados possam fomentar novas ações.

Jornada reuniu professores, pesquisadores e críticos. Foto: divulgação

A programação da tarde foi aberta com a palestra de Agnaldo Farias, seguida igualmente de importantes questões. E, depois do intervalo, a mesa com a participação de Regina Schwanke, diretora do Instituto Luiz Schwanke; Justo Werlang, representando a Bienal do Mercosul; Luiz Ernesto Meyer, presidente da Bienal Internacional de Curitiba e Eneléo Alcides,  diretor da Fundação Cultural BADESC.

A escolha dos nomes de Fernando Cocchiaralle e Agnaldo Farias como convidados palestrantes, atendeu ao critério de serem críticos que atuam em instituições em polos culturais importantes do País, que funcionam como modelo para as demais regiões. Cocchiaralle esteve na Fundação Nacional de Artes (Funarte) e está, atualmente, como curador chefe do Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro.  Farias foi curador chefe e está atualmente no Conselho do Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. Cada um deles apresentou sua experiência nestas instituições, pontuando a atuação do crítico, as dificuldades e as possibilidades destas parcerias.

Neste momento, em nosso contexto, quando muitas instituições de arte do País se encontram em crise ou, pelo menos, precisando lidar com importantes restrições, abrir o debate sobre a presença e as expectativas sobre as ações dos críticos é fundamental. Estamos em um momento em que devemos buscar soluções criativas e aprofundar as reflexões sobre o papel da arte em nossa sociedade. Considerando que a fragilidade das instituições tem dado ao mercado um protagonismo, muitas vezes criticado e mesmo demonizado, pensar as ações das instituições e nosso papel como críticos dentro e fora delas é um aporte que pode reverter em novas e mais ousadas dinâmicas.

A arte contemporânea com suas rupturas de limites, suas redefinições estéticas e seu abandono dos lugares tradicionais reconfigura a atuação do crítico e a torna decisiva, tanto nos diálogos com os artistas como nas interfaces com o público. A Jornada ABCA 2016, ao contar com a presença das mais importantes instituições de arte da região Sul, pretende reafirmar posições que abram diálogos, para que as instituições possam ter, nos críticos, significativos aliados.

Momento I: museus, seus acervos e práticas 

Palestra da manhã, foi mediada por Claudia Fazzolari, vice- presidente da ABCA, que apresentou o convidado e conduziu o debate. Fernando Cocchiaralle trouxe um panorama da relação arte e critica de arte desde seus primórdios, enfatizando que para fazer história da arte, necessitamos conhecer teorias da arte e que não podemos abrir mão de nossa capacidade crítica. Foram observadas grandes transformações no sentido e função da arte. Mudanças que valorizam a teoria, todavia, o que importa não é a teoria, mas a obra de arte. Submeter a arte à uma grade intelectual é um problema. A crítica de arte situa-se na esfera da experimentação. Existem as teorias da arte, mas a matéria empírica é pensada pelos artistas, assim, produção deve estar aliada à crítica que escreve a história da arte. Cocchiaralle afirmou que o curador de hoje é o velho crítico, sem função de intermediação ou decodificação, pois está mais para hermeneuta, produzindo sentido para as produções. Não se faz mais crítica, como antes esta era conhecida, entretanto, o fato de não haver mais aquele papel exercido por Diderot ou Mario Pedrosa, por exemplo, não quer dizer que não haja mais da crítica. Na sua avaliação, a crítica hoje é diferente, podendo ser exercida pelo curador ou pesquisador, entre outros. Ressaltou o importante papel do Estado, onde constatou a existência de gestores jovens, muito burocratas, onde a normatização exagerada prejudica o todo. Segundo ele, a sociedade de controle está muito presente também nas instituições museológicas, que precisariam de uma lógica diferenciada de funcionamento em vários aspectos. Muitas vezes, quando as instituições pertencem ao sistema público, o artista acaba sendo desconsiderado. Um problema dos museus brasileiros é que não mostram o acervo ao se transformarem em centros culturais. Segundo ele é necessário relativizar a hegemonia dos eventos em detrimento de um processo de formação do público.

Fernando Cocchiaralle e Claudia Fazzolari. Foto: divulgação

A mesa da manhã, com foco na construção, aquisições de acervos, políticas econômicas, ações e públicos, foi mediada por Sandra Ramalho (ABCA – SC) e Luana Wedekin (ABCA- SC). As características e atividades do Museu Oscar Niemeyer foram apresentadas por Glaci Gottardello Ito, representante do Museu Oscar Niemeyer, MON, de Curitiba. Também descreveu as peculiaridades de  um museu público e estatal, enfatizando as ações educativas e capacitação de professores de arte, a importância dos patronos e a articulação com a sociedade, entre outros aspectos do MON, inclusive em suas formas de manutenção financeira.

Paulo Amaral, diretor do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, apresentou o MARGS, suas políticas, enfatizando a área bem montada de documentação e pesquisa. Ressaltou também a importância de seu núcleo educativo que, em sua visão, tem sido a melhor ação do museu, enraizando a noção de que arte é bem e direito a ser usufruído por todos. Apontou a problemática de que o MARGS não pode cobrar entrada, por questões politicas e questiona este fato como negativo, algo a pensar. Destacou que existe um afastamento dos críticos cuja participação no Museu é praticamente nula. Para ele, curador tem que ser critico, mas nem sempre o crítico tem que ser curador.

Lourdes Rosseto, diretora do Museu Victor Meirelles, de Florianópolis, apresentou o Museu, em um texto que destacava fatos e feitos importantes. Informou que atualmente o Museu está instalado provisoriamente em outro local, enquanto aguarda ampliação de seu espaço físico. Ela defendeu a necessidade de repensar o lugar tradicional de museus, não mais apenas como depositários de objetos e obras, ressaltando a necessidade de formação de público.

Ao final, Sandra Ramalho e Luana Wedekin fomentaram o debate, apresentando as ideias centrais da mesa, de que o papel da crítica de arte e de museus precisa ser reinventado, ressaltando o papel do museu não apenas como preservador de obras. Sandra Ramalho lamentou a “eloquente ausência” do Museu de Arte de Santa Catarina.

Momento II : Institutos, Bienais e Centros culturais, novas dinâmicas

Palestra da tarde, foi mediada por Maria Amélia Bulhões, presidente da ABCA, que apresentou o convidado e ao final, conduziu o debate. O crítico Agnaldo Farias que atua no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, considerou o evento muito relevante. “Uma iniciativa que já vem tarde”, ponderou. Apontou que na discussão que se pretende, considera importante a diferença de contextos de cada instituição, mas que os museus deveriam ser pensados em rede, em fluxo. Sobre os críticos, disse estarem afeitos às questões estéticas, mas pouco sensíveis às questões operacionais. Trabalho critico é diferente de trabalho opiniático. Os gestores precisam rever pressupostos, estratégias, práticas, para ver se estamos errando em alguma coisa, para ver se não estamos perdendo de vista a matéria prima. Existe uma incomunicabilidade entre museus e crítica. Destacou a importância do diálogo em lugar da polarização e que as especializações, com diferentes profissionais que não dialogam entre si, contribuem para essa incomunicabilidade, pois as pessoas se ignoram e se conservam, cada qual em seu território. Enfatizou a superação dos ressentimos das especializações, defendendo uma atuação mais integrada. Segundo ele, os críticos foram sendo “expulsos” dos jornais, porque o publico não lê, porque os textos eram considerados complexos. De fato, o texto acadêmico ficou mais hermético. A crítica de arte nos jornais cedeu espaço para o jornalismo cultural. O público é “um relógio que se atrasa”. As instituições precisam entender a curadoria como uma mesa de negociações, é preciso entrar na tessitura dos artistas e ter respeito também aos colecionadores. A fonte de tudo são os artistas. Entende que estamos em um momento grave: “nós não nos respeitamos”, pois as pessoas não conversam e não respeitam o que não conhecem.  Perguntou: onde estamos errando? O que nos diz respeito? Museu oferece insumo estético que a Universidade não oferece. Arte não pode ser tratada como evento. Os textos de catálogos precisam ser mais acessíveis, pois são diferentes de textos acadêmicos. Enfatizou que o Brasil não está no cenário de produção de conhecimento, nós somos receptores. Raras vezes produzimos conhecimento e mais raros ainda são os pontos de itinerância. É fundamental o papel conjunto da Critica de Arte e das Instituições na superação deste cenário.

Mesa da tarde: a programação seguiu com foco nas articulações e alianças com outras instâncias da sociedade, dinâmicas mais pluralistas, foi mediada por Néri Pedroso ( ABCA – SC) e Rosangela Cherem ( PPGAV- UDESC). A jornalista Néri Pedroso iniciou com um texto situando problemáticas relevantes “ Quem trabalha com arte no Brasil enfrenta desafios todos os dias, dos banais aos mais difíceis. Conduzir um museu, um evento ou iniciativa no universo das artes visuais, não é algo tão simples num sistema que opera em extrema penúria, em constante desalinhamento entre o real, o campo teórico, jurídico e político. Neste panorama, muitas vezes o cansaço abate equipes de trabalho. Essa mesa intitulada “Circuitos e Mercado, Distâncias e Proximidades” tem como convidados Justo Werlang, Maria Regina Schwanke Schroeder, Eneleo Alcides e Luiz Ernesto Meyer Pereira”.

Rosangela Cherem, Maria Regina Schwanke Schroeder, Justo Werlang, Luiz Ernesto Meyer Pereira, Eneleo Alcides e Néri Pedroso. Foto: divulgação

Regina Schwanke, presidente do Instituto Schwanke, falou da herança cultural deixada pelo artista plástico e seu irmão Luiz Henrique Schwanke. Seu depoimento destacou as ações do Instituto e mostrou como o destino de uma herança se transformou em trabalho de voluntariado, complexo e que exige engajamento de muitos parceiros que se dediquem à causa com afinco, para manter e dar visibilidade a um patrimônio de aproximadamente 3.000 obras. Incansável no compromisso de zelar pela memória de Schwanke, mostrou como está mobilizada em torno de ações que oferecem possibilidades de aprimoramento intelectual em torno da arte contemporânea. Com esse fim, ajuda a organizar seminários, encontros de discussão, palestras e livros. Guardiã de uma memória, mas certa de que não cuida de um patrimônio que é seu, mas de Santa Catarina e do Brasil.

Justo Werlang, um dos fundadores e membro do Conselho de Administração da Fundação Bienal do Mercosul, lançou as seguintes questões: “A quem deveria servir a Bienal? Para que serve a Bienal?”. Acredita na desprovincialização, ou seja, encontrar e dialogar com todos os públicos. Explicou como a Bienal do Mercosul se formou a partir do governo, empresariado, artistas  e instituições culturais. Evidenciou os projetos educativos como um fator importante do projeto. Falou das crises e possíveis soluções, acreditando também sem necessário repensar o projeto de estrutura da Bienal do Mercosul. Disse creditar em projetos de desenvolvimento sustentável, ressaltando que as visões das instituições precisam estar bem definidas e ter foco. Instituições sem processos definidos entram em crise e, é muito difícil encontrar bons gestores culturais.

Luiz Ernesto Meyer Pereira, diretor geral da Bienal Internacional de Arte Contemporânea de Curitiba, apresentou as diversas atividades da Bienal, que incluem amostras e atividades paralelas, envolvendo esforços conjuntos e colaborativos. Em uma fala otimista, destacou que esforços institucionais coletivos e práticas colaborativas são caminhos a serem percorridos, se esgotadas outras formas de produção cultural, pois acredita muito no trabalho em grupo.

Eneléo Alcides, diretor geral da Fundação Cultural Badesc, apresentou a Fundação, referência no Estado de Santa Catarina.  Suas atividades envolvem cinema gratuito, exposições ofertadas por seleção em editais, feiras de arte, oportunizando vendas de obras de arte e trocas entre artistas e público, entre diversas outras atividades. Por seu edital, pela continuidade dos projetos e pelo expressivo números de usuários, é considerado um dos melhores espaços culturais do Estado, sobretudo por sua abertura para a produção contemporânea, que ficou à mercê com o fechamento do Museu de Arte de Santa Catarina por quase três anos entre 2009 e 2011. Em sua fala, ficou evidente a colaboração de parceiros mais fixos, sobretudo da UDESC, em trabalho de curadoria e outros, mas também destacou que no geral, a relação com Universidades, pensadores e críticos é  distante.

Conclusões

Sobre possíveis conclusões da Jornada ABCA 2016, podemos apontar a constatação de que a crítica de arte e as instituições culturais estão afastadas.  Existe uma incomunicabilidade entre museus e críticos de arte. Faz-se necessário tentarmos essa aproximação mais efetiva. Devemos mostrar que estamos fazendo crítica de arte nas Universidades, em textos de apresentação de artistas, blogs, jornais virtuais ou outros, ou acharão mesmo que a crítica de arte não mais existe. Pois para o público em geral, e mesmo para muitos gestores, a crítica de arte ainda é aquela, que faz julgamentos, e noticia eventos em jornais, não aquela que exerce o pensamento reflexivo. O papel da crítica e sua relação com museus e instituições culturais precisa ser reinventado, entrando no cenário como necessária produção de conhecimento. A critica se alocou no meio acadêmico, cumprindo importante papel reflexivo e formativo para os profissionais e artistas. Entretanto, nos jornais ela se extinguiu, em parte porque as pessoas, inclusive produtores culturais, não leem jornais e em decorrência disso, acabaram com colunas especializadas. Nas instituições culturais, as dificuldades financeiras crescem e as relações se tornam difíceis, pois não há como propor trabalho sem o devido pagamento. Em descaso, sem referências e em velocidade crescente de desagregação, as relações se deterioram. As instituições brasileiras, como bem definiu Fernando Cocchiaralle, “hibernaram”. As exigências institucionais que existem somadas à falta de condições para realização de trabalhos, dificultam as trocas. As instituições culturais e museus talvez devessem ser pensados em redes colaborativas.

Avaliação – destacamos algumas percepções a partir do evento:

A Jornada ABCA 2016, teve um impacto positivo em seus participantes, pois, para muitos, foi bom ter ouvido as falas, explicitando diversas estratégias tomadas pelos gestores, curadores e críticos, em relação aos desafios que percebem em seus respectivos cotidianos e também, como se percebem a si mesmos. Foi importante perceber como os gestores se apropriam das realidades que encontram em suas instituições e as modificam.  A oportunidade de refletir sobre a diversidade de posicionamentos de todos foi bastante profícua, tanto para parametrizar as orientações objetivas dos participantes frente às instituições onde atuam ou dirigem, quanto para avaliar aspectos subjetivos de como lidamos com essas diferentes realidades frente aos nossos desejos de realização.

O evento animou a muitos em seu retorno ao cotidiano do trabalho, pois tiveram boa acolhida, vivenciaram um debate intenso e de qualidade. A troca fértil e sincera entre os presentes, o convívio animado e agradável, curto, mas intenso, deu muito o que pensar. Alguns gostaram das acaloradas trocas de ideias, sinceras, em que muitas coisas saíram “das tocas”. Debates muito necessários, realizados por pessoas maduras, inteligentes, cultas e experientes, em um espaço onde havia, apesar das divergências, um ambiente propício a trocas e colaborações, e, principalmente, a vontade de todos em acertar. Outros destacaram que fazia tempo que não participavam de evento assim, tão intenso. O espaço do Museu da Escola Catarinense da UDESC foi muito elogiado e Luiz Ernesto Meyer Pereira informou ao final, que obteve autorização da Bienal Internacional de Curitiba para incluir o Museu em seu roteiro. Outro fator positivo foi a estrutura do evento, menos acadêmica e mais flexível e propícia ao debate e troca de experiências.

* Maria Amélia Bulhões é presidente da ABCA e Sandra Makowiecky é vice-presidente – Regional Sul da ABCA.

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